VIOLÊNCIA


"VIOLÊNCIA EXPLODE, E PE REGRIDE UMA DÉCADA"
"Só no primeiro bimestre foram quase mil homicídios no Estado, crescimento de 47% em relação ao ano passado"


Por: Leandro Machado
        Danilo Verpa
       ENVIADOS ESPECIAIS AO RECIFE

"Falta de Policiamento, grupos de extermínio de ex-policiais e tráfico favorecem o fenômeno, segundo especialistas.
Quem vive em Pernambuco tem a sensação de que o Estado voltou dez anos no tempo quando o assunto é violência. Esse sentimento é confirmado pelos números.
Nos meses de janeiro e fevereiro, foram registrados 974 homicídios - quase 17 por dia. Isso representa um aumento de 47% em relação ao mesmo período de 2016. O Estado de São Paulo, com população quatro vezes maior, contabilizou 622 assassinatos nesses meses.
O índice alto acendeu um sinal amarelo nas autoridades pernambucanas, que recontratando até policiais aposentados para tentar investigar os crimes.
Recife também sofre com assaltos a ônibus. Levantamento do sindicato dos motoristas e do 'Jornal do Commércio' aponta mais de mil roubos neste ano - o governo Paulo Câmara (PSB) contesta e diz que não passam de 500.
De fato, Pernambuco vive um retrocesso: desde 2007 não se registram tantos assassinatos. Naquele ano, o primeiro de Eduardo Campos (PSB) como governador, o Estado implantou um programa de redução de mortes que foi premiado: Pacto Pela Vida.
O projeto tinha como meta reduzir os homicídios em 12% ao ano. Para isso, apostava na integração das polícias para melhorar a investigação, bônus a policiais que resolvessem mais crimes e participação popular na criação de políticas públicas de prevenção e combate à criminalidade.
Em 2007, foi criada a primeira delegacia especializada na resolução de homicídios. O Estado foi dividido em 26 áreas, e os responsáveis eram cobrados em reuniões semanais com o governador.
Nos anos seguintes, as mortes violentas caíram. Em 2013, Pernambuco teve 3.100 assassinatos, o menor número desde que começou a contabilizar esses crimes.
'Havia grupos de extermínio responsáveis por grande parte dos homicídios', diz José Luiz Ratton, professor de sociologia da Universidade Federal de Pernambuco e um dos idealizadores do Pacto Pela Vida. 'Quando você investiga e prende esse pessoal, você manda um recado às ruas de que matar não está compensando mais'.
Ratton foi assessor de Eduardo Campos na área de segurança pública até 2012. Na avaliação dele, o Pacto perdeu força por não conseguir manter a integração das polícias, melhorar o precário sistema prisional nem fomentar projetos de prevenção duradouros. Muitos dos avanços, como os bônus para policiais, não têm força de leis."


"EXTERMÍNIO"

"Autoridades e pesquisadores pernambucanos dizem acreditar que a maioria das mortes tem relação com o tráfico, mas não há notícia da atuação significativa de grandes facções criminosas.
Existem, porém, guerras pelo domínio de pequenos territórios. Quando há um assassinato em um grupo, liga-se um sistema de vingança que parece não ter fim.
Um morador de Várzea, periferia do Recife, explica o motivo dos sete assassinatos nos últimos dois meses no bairro: 'Aqui tem dois grupos [de traficantes]. É uma diferença de duas ruas entre um e outro. Um cabra chamado 'Cabelo' falou que mataria todos que entrassem no ponto dele para vender. Matou um, matou dois. Aí foram lá e revidaram. Já são sete mortos'.
O tráfico também mata quem não paga. Ratton, que pesquisa o mercado de drogas no Recife, diz que usuários de crack, por exemplo, vendem a pedra para pagar dívidas. Viciados, usam a mercadoria que deveriam repassar e acabam mortos por traficantes.
O próprio governo aponta outro fator: os grupos de extermínio ligados a ex-policiais. As quadrilhas fazem segurança particular, cobram taxas de comerciantes e 'prestam serviços' de pistolagem.
Um deles, o Thundercats, foi desmantelado em 2008, mas um de seus líderes continua solto. Ex-soldado da Polícia Militar, Marcos Antônio da Silva responde à Justiça por 25 assassinatos. 'Nós temos, sim, milícias armadas atuando no Estado, isso não é novidade', reconhece Angelo Gioia, secretário de Defesa Social (segurança pública)."


"PADRÃO"

"Desde dezembro, a PM faz operação padrão, diminuindo o número de homens nas ruas. Os policiais reivindicam que seus salários sejam equiparados aos dos policiais civis - cerca de R$ 6.000.
Para aumentar os agentes nas ruas, o Estado paga uma remuneração extra para que trabalhem durante as folgas. Agora, durante a operação padrão, os policiais se recusam a fazer esse 'bico' oficial.
Também não deixam os quartéis se houver problemas de estrutura. 'O PM não pode sair às ruas com coletes e munições vencidos, armamento que trava na hora de atirar, nem viaturas sem condições de rodar', diz Nadelson Leite, vice-presidente da Associação de Cabos e Soldados.
O governo afirma que a operação padrão é um dos fatores que contribuem para o aumento de crimes. O governador tem se recusado a negociar salários com a associação - diz que só negocia com comandantes da tropa.
A Polícia Civil também reclama da falta de efetivo e precariedade. Uma portaria do governo previa que o Estado deveria ter 10 mil agentes em 2015: dois anos depois, há cerca de 5.000. Algumas delegacias foram interditadas pela Justiça por falta de estrutura.
Com a explosão das mortes, a gestão Câmara anunciou a recontratação de 800 policiais aposentados para atuarem em serviços internos e liberar agentes efetivos para investigações. O salário é de R$ 1.800 por 40 horas semanais."


Notícia retirada do jornal FOLHA DE S. PAULO - EDIÇÃO DIGITAL - Ano 97 - nº 32.155, pág B1. 16 de abril de 2017 (Acesso: 16/04/2017)

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