CONHECIMENTO CEREBRAL DESTACA CURIOSIDADE!


"SERIAL KILLERS NO BRASIL"


Por: Bruno Lazaretti [Reportagem]
        Estevan Silveira [Ilustra]
        Marcos de Lima e Juliana Cairo [Design]
        Marcel Nadale [Edição]

"O nosso imaginário alimentado por Hollywood, geralmente associamos serial killers aos EUA. Mas eles também estão entre nós. Nas próximas páginas, você vai conhecer casos macabros em PA, MA, RJ e SP. A dúvida não é sobre onde eles estão, mas quantos são. O professor M. G. Aadmodt, da Universidade de Radford, que contabilizou casos no mundo todo desde 1900, calculou 27 no Brasil. Mas trata-se de uma aproximação, baseada no 'número de assassinatos, de assassinos capturados e de relatos da polícia ou da mídia'. A maior pesquisadora do tema no país, Iana Casoy, já compilou 73 assassinos em série brasileiros, sendo que 66 foram capturados. Casoy é parte do grupo de pesquisadores que, no mundo todo, tenta entender a lógica por trás desses crimes que parecem tão lógicos. E, sim, serial killers podem ter os mais diversos modos de ataque e motivações, mas apresentam características em comum. Por exemplo, a dissociação: às vezes sem nem se dar conta conscientemente, criam uma máscara social que deflete surpresas. Ou então a busca pelo controle, que se torna o principal 'combustível' em sua fantasia de dominação sobre a vítima. E, por fim, a reencenação: a repetição mental do crime (às vezes, com a ajuda de algum 'souvenir' extraído da vítima), que pode aplacá-lo por um tempo... ou estimulá-lo a matar novamente."

OS IRMÃOS NECRÓFILOS

Nome: Ibraim e Henrique de Oliveira
Vítimas: ao menos oito
Local de atuação: Nova Friburgo, RJ
Período dos crimes: fevereiro de 1991 a novembro de 1995
Pena: 34 anos

Em 15 de fevereiro de 1991, a pacata comunidade de Riograndina, distrito de Nova Friburgo, entrou em choque. O corpo de Eliana Macedo Xavier, de 21 anos, foi encontrado na mata, estrangulado com um fio de arame e estuprado após a morte. Sete meses depois, o pesadelo se repetiu, quase no mesmo local. Mas, desta vez, a vítima tinha apenas 11 anos. E um garoto confessou o crime: Ibraim de Oliveira, então com 14 anos.
Ele e Henrique eram os mais velhos de uma família de lavradores. Viviam isolados, inclusive dos irmãos e do pai que, frequentemente, os surrava ou mandava dormir no meio do mato. O ciclo de violência se perpetuou quando ambos estupraram a própria mãe, Maria Luiza, e a irmã, Márcia, segundo afirmou Maria Luiza em uma entrevista.
Por ser menor de idade, Ibraim cumpriu a pena pelo assassinato da garota no Instituto Padre Rafael, na Ilha do Governador, até 1994, quando fez 18 anos. No canavial de 1995, os assassinatos em Nova Friburgo recomeçaram. A cidade entrou em pânico, mas não se lembrou de Ibraim e Henrique. Eles só foram acusados quando uma vítima escapou. Nua, violada e com sangramentos causados por pedradas e facadas, Elizeth Ferreira Lima conseguiu fugir e contar às autoridades que ela e seu marido, João Carlos Maria da Rocha, haviam sido surpreendidos pelos irmãos quando estavam em uma cachoeira. Rocha foi morto a pedradas e violado, mas ela conseguiu fugir.
Habituados a viverem ao ar livre, os irmãos escaparam da perseguição policial isolando-se no meio da mata. A caçada durou vários meses, o que lhes deu tempo para ainda fazer outras cinco vítimas.

MODUS OPERANDI, RITUAL E ASSINATURA

Os irmãos pareciam agir de acordo com a oportunidade, o que sugere um perfil desorganizado. Davam preferência a mulheres, sem se importar com idade ou etnia. Suas duas únicas vítimas masculinas foram mortas por tentarem proteger a mulher que os acompanhava. O uso do fio de arame era frequente, mas a verdadeira assinatura da dupla era a violação do corpo após a morte.

COMO FORAM PRESOS

Em meados de 1995, o Bope foi chamado para auxiliar na busca. A operação com mais de 200 homens só teve sucesso em 16 de dezembro, quando o lavrador César de Araújo Pinto avistou Ibraim perto de seu sítio, avisou o Bope e se enfiou na mata atrás dele. César o encontrou e tentou dominá-lo. Ibraim estava prestes a esfaqueá-lo quando levou cinco tiros do subcomandante Fernando Príncipe Martins, que finalmente os havia alcançado. O serial killer fugiu, mas morreu horas depois. Henrique permaneceu foragido e só se entregou seis meses depois, em junho de 1996.


O ASSASSINO DA BAIXADA FLUMINENSE

Nome: Sailson José das Graças
Vítimas: 42 (segundo ele)
Local de atuação: Nova Iguaçu, RJ
Período dos crimes: 2005 a dezembro de 2014
Pena: 17 anos

Quando foi preso, em 9 de dezembro de 2014, Sailson ganhou manchetes ao confessar um número assombroso de vítimas: 39 mulheres, um bebê e três homens. Até agora, ele foi condenado apenas pelo assassinato a facadas de Marilene de Oliveira Silva Brito, em janeiro de 2014. O restante dos crimes segue sem confirmação.
Segundo o próprio serial killer, foi a impunidade que o encorajou. Em 2007, quando já estava matando há dois anos,  foi preso - mas por roubar R$ 42. Condenado a quatro anos de prisão, cumpriu só um e foi liberado em regime semiaberto. Em 2010, voltou para a cadeia, por porte ilegal de um revólver e uma faca, mas não passou nem três meses em detenção.
Sua carreira no crime começou cedo, com pequenos delitos aos 15 anos. Aos 17, matou pela primeira vez - uma mulher cujo corpo diz ter escondido. Em 2010, aos 22, cometeu sua barbárie mais chocante: Sailson é acusado de ter invadido a casa de Fernanda Hazelman, estrangulando-a até a morte e esfaqueado o bebê dela para que a criança não chorasse e alertasse os vizinhos. Outra acusação, de 2013, é bem similar. Ele teria invadido a casa de Bianca dos Reis Cruz na calada da noite para estrangulá-la e torturá-la com pequenas facadas no pescoço; depois, esfaqueou o filho dela, de 5 meses. Ambos sobreviveram graças à avó da criança, que ouviu o choro, entrou no quarto e espantou o criminoso. Posteriormente, Bianca reconheceu Sailson, mas o crime ainda será julgado.
O Assassino da Baixada diz que matava por prazer, mas também tinha uma carreira "profissional": quatro assassinatos foram a mando de Cleusa Balbino, com quem ele morava. Segundo Sailson, ela encomendava os crimes em troca de "cama e roupa lavada". O ex-marido dela, José Messias, também vivia com eles, em uma casa no bairro do Jardim Corumbá, Nova Iguaçu. Fofocas da vizinhança diziam que era um triângulo amoroso, mas ainda não se sabe qual o envolvimento de Messias nos homicídios.

MODUS OPERANDI, RITUAL E ASSINATURA

Segundo seus próprios depoimentos, Sailson escolhia suas vítimas, sempre mulheres brancas, ao acaso. Passava semanas observando sua rotina, atrás de uma brecha. Preferia estrangulá-las com as mãos, embora tenha sido condenado por um crime em que matou com uma faca. Ele afirma ainda que sentia prazer em presenciar o sofrimento das vítimas, mas que não as estuprava.

COMO FOI PRESO

Entre 2011 e 2017, apenas 4,65% dos crimes cometidos na região de Nova Iguaçu terminaram em indiciamentos. Muitos moradores do bairro de Sailson já o reconheciam como autor de vários homicídios na região, mas a polícia só chegou junto quando amigas e vizinhas de Fátima Miranda estranharam seu desaparecimento, em janeiro de 2014. O corpo foi encontrado no quintal da residência de Sailson e Cleusa e o casal ainda estava com a arma do crime. Ele alega que matou Fátima a mando da namorada.



O MANÍACO DO PARQUE

Nome: Francisco de Assis Pereira
Vítimas: entre sete e 15
Local de atuação: São Paulo, SP
Período dos crimes: 1998
Pena: 147 anos

O Maníaco do Parque se tornou um dos poucos legítimos "serial killers celebridades" do Brasil. Em parte, porque atacou na cidade mais populosa do país, recebendo ampla cobertura da mídia, desde os primeiros crimes até sua caçada e julgamento. E, em parte, por atacar de modo bastante específico, num local bem determinado - uma remissão ao esteriótipo de que assassinos em série são sempre organizados e hábeis manipuladores. A perita da Polícia Civil Jane Pacheco Belucci, que trabalhou no caso, atestou: "Ele é inteligentíssimo. Tem uma fala mansa que convence".
Segundo o próprio Francisco, sua primeira vítima foi em janeiro de 1998. Até ser preso, em agosto, ele supostamente atacou ao menos mais de 17 mulheres, em intervalos praticamente mensais. Jamais fez uso de força ou coerção: ele usava charme e papo para convencê-las de que era um fotógrafo de modelos, levando-as na garupa da moto para uma sessão de fotos nas áreas mais remotas do Parque do Estado, na zona sul de São Paulo. Conforme os casos foram se acumulando, a população entrou em desespero e o local se tornou praticamente uma zona fantasma.
A "carreira" de Francisco, porém, começou muitos anos antes, em 1995, quando tentou estuprar uma mulher num prédio em construção na cidade de São José do Rio Preto (SP). Ela escapou, ele foi preso, mas apenas pagou uma multa de R$ 80 por constrangimento ilegal e foi solto por ser réu primário. Felizmente, sua fase na capital do estado lhe rendeu uma punição muito mais rígida: duas condenações por homicídio e 11 por estupro.
Na cadeia, ele passou a receber milhares de cartas, declarações de amor e presentes de mulheres que diziam admirá-lo. Em 2002, ainda preso, casou-se com uma delas, Marisa Mendes Levy, então com 60 anos. Não durou muito, pois Marisa passou a perceber comportamentos estranhos e violentos em Francisco. Segundo criminólogos, a admiração romântica por criminosos tem um nome: hibristofilia.

MODUS OPERANDI, RITUAL E ASSINATURA

As vítimas do Maníaco do Parque eram mulheres relativamente jovens, que ele escolhia de acordo com a beleza e a oportunidade. Usando sua lábia, convidava-as a um ensaio em áreas remotas do Parque do Estado. Lá, as espancava, estuprava e, a partir de janeiro de 1998, passou a matá-las, estrangulando-as com um cardaço ou com as mãos. Em algumas vítimas, também foram encontradas marcas de mordidas, feitas após a morte. O assassino chegou a admitir que quase cometeu canibalismo.

COMO FOI PRESO

Quando sete corpos foram encontrados, até julho de 1998, a imprensa destacou o caso e sobreviventes do Maníaco entraram em contato com a polícia. A partir de um retrato falado, a investigação chegou à empresa onde ele trabalhava. Lá, encontraram, parcialmente queimada, a carteira de identidade de uma das vítimas. A essa altura, Francisco já estava em fuga. Foi capturado em Itaqui (RS), onde foi reconhecido por um pescador.



O EMASCULADOR DO MARANHÃO

Nome: Francisco das Chagas Rodrigues de Brito
Vítimas: acusado de matar 42
Local de atuação: Altamira, PA, e região metropolitana de São Luís, MA
Período dos crimes: agosto de 1989 a dezembro de 2003
Pena: 507 anos

Talvez o maior serial killer nacional em número de vítimas. Chagas é acusado de assassinar meninos de 4 a 15 anos por um período de 14 anos. A comunidade ao seu redor demorou a suspeitar: ele era um mecânico aparentemente dócil e inteligente (fez 105 pontos num teste de QI) e manteve relacionamentos frequentes com várias mulheres. Mas tudo isso escondia um passado cheio de traumas, como o abandono pelos pais aos 4 anos, as surras com cipó de jatobá de três pontas aplicadas pela avó e o abuso sexual por um homem 15 anos mais velho que ele.
A ineficiência e a negligência policial também explicam sua longa "carreira", iniciada em 1989. Os investigadores relutaram em conectar as várias vítimas a um assassino em série e não aplicaram a metodologia ideal para um caso desse tipo. Por causa da falha, o Estado do Maranhão chegou a ser processado pela Organização dos Estados Americanos em 2001 por violação dos preceitos contidos na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem e da Convenção americana sobre os Direitos Humanos.
Enquanto as autoridades boiavam, Chagas agia: segundo sua própria confissão, foram 12 crimes no Pará, e 30 no Maranhão, para onde se mudou temporariamente em 1991 e definitivamente em 1994. Mas esse total não é consenso entre os envolvidos no caso. O problema é que, meses antes, uma onda de emasculações e assassinatos de meninos no Pará entre 1989 e 1993 foi atribuída a uma seita chamada Lineamento Universal Superior. Em um julgamento em 2003, quatro membros do culto foram condenados e permaneceram presos mesmo após a confissão e o julgamento de Chagas. Os relatos do próprio maníaco variavam: em algumas declarações, disse que foi torturado na cadeia para assumir a autoria de crimes alheios. Também chegou a alegar que ouvia vozes ou era estimulado por uma criatura branca flutuante, mas isso pode ter sido uma mentira para permitir que seus advogados alegassem insanidade.

MODUS OPERANDI, RITUAL E ASSINATURA

Chagas abordava os meninos rapidamente, em público, e usava alguma desculpa para levá-los à mata ou algum local isolado. Lá, geralmente os estrangulava ou os golpeava por trás até que desmaiassem ou morressem. Em seguida, na maioria das vezes, retirava as genitálias das vítimas (daí seu apelido). Em outros casos, também arrancava os dedos, orelhas, panturrilhas e mamilos. Os corpos eram cobertos especificamente com folhas de tucum, uma espécie de palmeira.

COMO FOI PRESO

Os numerosos crimes foram ignorados ou averiguados com negligência pela polícia. Ao todo, 29 pessoas foram processadas como autores. O quadro só mudou quando a família da vítima, Jonnathan Silva Vieira, revelou, em sua queixa, que o menino havia avisado que encontraria Chagas. A polícia resolveu detê-lo e revistar sua casa. Encontraram ossadas de crianças enterradas e deram início a uma extensa investigação.



OS CASOS SEM SOLUÇÃO
Existem ao menos sete serial killers no Brasil que não foram presos. Conheça dois cuja identidade ainda é desconhecida

O ESTRANGULADOR DE GUARULHOS

Vítimas: ao menos dez
Local de atuação: Guarulhos, SP
Início dos crimes: julho de 2001

O primeiro ataque registrado foi a invasão na casa de Elisângela Nicolau dos Santos, de 24 anos, que foi estrangulada com um cinto feminino encontrado no local. Desde então, ao menos nove assassinatos de mulheres entre 6 e 34 anos ocorreram na divisa entre Guarulhos e Jaçanã, bairro da zona norte de São Paulo. A partir do relato de uma sobrevivente, foi criado um retrato falado do suspeito. Já a partir de 2002, não se teve mais notícia da atuação do assassino.

MODUS OPERANDI, RITUAL E ASSINATURA

O Estrangulador ataca mulheres sozinhas em casa durante o dia. Em algumas ocasiões, a residência é invadida; em outras, ele consegue entrar sob algum pretexto - alegando, por exemplo, ser funcionário da companhia de água. Sua assinatura é estrangular a vítima com roupas, panos ou objetos encontrados no próprio local. Em alguns casos, estupra a vítima. Como souvenir do crime, costuma levar um eletrodoméstico - videocassete, TV, aparelho de som, ferro de passar etc.

RETRATO FALADO
  • Loiro
  • Sardas no rosto
  • Barrigudo
  • Cerca de 1,75 m de altura
  • Cicatriz na bochecha esquerda
  • Usa óculos 
  • Risada sarcástica (no início do ataque)
O MANÍACO DO ARCO-ÍRIS

Vítimas: ao menos 12
Local de atuação: Parque dos Paturis, São Paulo, SP
Período: entre julho de 2007 e agosto de 2008

A polícia passou a acreditar que os 12 assassinatos ocorridos nesse parque haviam sido cometidos pela mesma pessoa quando comparou a semelhança entre cada caso (as vítimas eram sempre homossexuais, executados a tiros) e a regularidade com que aconteciam (com um intervalo médio de um mês entre eles). Investigadores chegaram a prender um PM reformado em dezembro de 2002, mas ele foi solto por falta de provas.

MODUS OPERANDI, RITUAL E ASSINATURA

O suposto assassino em série agia nas noites de fim de semana. Atraía sua vítima (sempre homens) a áreas isoladas do parque, onde a executava com um revólver calibre 38 ou uma pistola calibre 380. Nenhum tiro foi desperdiçado, o que sugere que o assassino tinha proficiência com armas de fogo.

RETRATO FALADO
  • Pardo
  • Cerca de 1,65 m de altura
  • Roupas escuras e capuz

A matéria acima foi retirada da revista MUNDO ESTRANHO - Edição 209. Junho de 2018. Todos os direitos autorais são reservados exclusivamente à revista MUNDO ESTRANHO e à Editora Abril.



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